domingo, Dezembro 28, 2008

Quando os chimpanzés atacam

Agora que já passou a quadra natalícia é boa altura para voltar a um dos meus temas favoritos: a desconstrução dos mitos dos animais bonzinhos. Antes de voltar ao tema do ciúme e outros estados de alma dos animais, começo por lembrar que animais selvagens, mesmo em cativeiro, não são animais de estimação, nem têm nada que ver com o que aparece nos filmes da Disney. Em 2005, foi isto que aconteceu ao dono de um santuário de primatas, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América:

O antigo piloto de NASCAR, com 65 anos, perdeu todos os seus dedos, um olho, o nariz, partes das bochechas e lábios, e bocados do seu tronco para um grupo de chimpanzés atacantes em 2005. Os animais atacaram, no seu santuário, depois de aparentemente terem ficado ciumentos por Davis estar a preparar-se para oferecer um bolo de aniversário a Moe.

Moe era um outro chimpanzé do santuário, que não se envolveu nos ataques. Esta citação provém do Los Angeles Times, e recolhia-a via blogue de John Hawks, que refere que os testículos do infeliz senhor também foram arrancados. Notem a referência a possível ciúme, um tema a que voltarei. Se isto vos incomoda então é melhor evitarem o Cais de Gaia nos próximos tempos. Vamos ter mais mordidas em humanos, violência conjugal, assassinatos, infanticídio e canibalismo.

Ficha Técnica
Imagem cortesia de Frans de Waal e da PLoS Biology, via http://dx.doi.org/10.1371/journal.pbio.0030202.

segunda-feira, Dezembro 08, 2008

O sentimento de injustiça canina

Esta imagem, que mostra um gesto aparentemente banal, um cachorro a dar a pata a um ser humano, é parte de um estudo científico muito interessante sobre o comportamento canino. Um estudo que se debruçou sobre a inveja e sentimentos de injustiça. Este cachorro vai ser confrontado com um tratamento desigual relativamente ao seu parceiro da fotografia. Os donos de cães tendem a afirmar que aos seus animais só lhes falta falar e atribuem-lhes um certo número de estados de espírito "humanos." Um dos mais óbvios é o ciúme, despoletado pela chegada de um outro cão (ou de uma criança) no agregado familiar. Este estudo recente mostra que os cães são capazes de sentimentos mais subtis, e que são sensíveis a situações em que a trabalho igual correspondem recompensas distintas, isto é, os cães distinguem quando são vítimas de injustiça. [... ler mais]

O estudo que indaga de que forma os cachorros reagem a desigualdades na recompensa dada a uma mesma tarefa é da autoria de Friederike Range e aguarda publicação na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Um elemento crucial na evolução da cooperação pode ter sido a sensibilidade aos esforços e recompensas dos outros quando comparados com os custos e ganhos próprios. Pensa-se que aversão à desigualdade seja a força que torna o castigo não-egoísta nos seres humanos um instrumento poderoso para impôr a cooperação.

O "castigo não-egoísta" é algo que nos leva por vezes a dispender um esforço maior para corrigir uma situação de injustiça do que aquilo que ganharíamos caso a tal situação não ocorresse. Os seres humanos são capazes de ir a extremos para castigar os indivíduos que identificam como batoteiros e aproveitadores.
Pesquisa recente mostra que primatas não humanos se recusam a participar em tarefas cooperativas de resolução de problemas se notam que um congénere obtém, para o mesmo esforço, uma recompensa mais apetecível. Contudo, pouco se sabe sobre espécies de não primatas, embora a aversão à desigualdade também seja esperada noutras espécies cooperativas. Investigamos aqui se os cães domésticos mostram sensibilidade no que se refere à desigualdade das recompensas recebidas ao darem a pata a um investigador encarregado de pares de cachorros.

A experiência efectuada era bastante simples. A fotografia no topo da contribuição ilustra um dos passos, mostrando dois cachorros, com o dono em pé por trás. Um deles está a dar a pata à investigadora, não recebendo nada por isso. O outro cachorro também deu a pata, mas recebeu uma recompensa :

Notem o olhar atento do primeiro cachorro ao ver o segundo a levar uma guloseima. Ora o primeiro cachorro não tinha levado nada, e após uma quantas vezes desta coisa repetida o resultado foi este:

O cachorro pura e simplesmente recusa-se a dar a pata, e nem sequer olha para a investigadora. Deve notar-se que, quando sem parceiro, o cachorro continua a dar a pata durante muito tempo, mesmo que não receba comida. Os autores do artigo concluem então:
Encontrámos diferenças nos cachorros testados sem recompensa de comida na presença de de um parceiro recompensado quando comparado com a situação base (ambos os parceiros recompensados) e uma situação associal de controlo (sem recompensa, sem parceiro), indicando que a presença de um parceiro recompensado é importante. Além disso, mostrámos que não foi a presença do segundo cão, mas o facto de que o parceiro recebeu a comida, que foi responsável pela mudança de comportamento dos indivíduos. Em contraste com os estudos dos primatas, os cães não reagiram a diferenças na qualidade da comida ou do esforço. Os nossos resultados sugerem que outras espécies além dos primatas mostram pelo menos uma versão primitiva da aversão à desigualdade, que pode ser um precursor de sensibilidades mais sofisticadas aos esforços e recompensas de interações mútuas.

Os cães não eram esquisitos, um deles podia receber pão enquanto o outro recebia salsicha que isso não os incomodava muito. Também não se importavam se o parceiro levasse comida mesmo que não levantasse a pata, desde que levassem alguma coisa ao levantarem a pata. Agora não levar nada e ver o parceiro a comer é que não. O tipo de reacção desta experiência exige claramente um julgamento por parte do cachorro. Os animais amuavam, e ficavam claramente perturbados, algo evidenciado pela forma como se coçavam, bocejavam e lambiam a boca.

Referências
(ref1) Friederike Range, Lisa Horn, Zsófia Viranyi, Ludwig Huber (2008). The absence of reward induces inequity aversion in dogs. PNAS, no prelo. doi:10.1073/pnas.0810957105

sábado, Novembro 22, 2008

Abraçar um panda

Para celebrar o regresso, eis, não um artigo científico, mas uma notícia referente à criatura da imagem, o panda-gigante de seu nome científico Ailuropoda melanoleuca. Como deixei transparecer nalgumas contribuições anteriores, detesto pandas, embora a culpa não seja dos animais. A iconografia ligada aos pandas simboliza tudo o que há de errado na abordagem humana à natureza, em que os animais que interessa preservar são os bonitos e fofinhos. Em geral, costumo referir-me a estas criaturas como "abraçáveis," e não fiquei espantado ao ler que um estudante chinês de 20 anos chamado Liu, decidiu invadir o recinto de um panda chamado Yang Yang no zoológico de Qixing Park na China, para lhe dar um abraço. Digamos que não foi uma boa ideia, tal como Liu descobriu de uma forma bastante dolorosa. [... ler mais]

De acordo com o texto veiculado no Estadão, e na CNN, o estudante não recebeu o abraço caloroso que estava à espera, mas sim dentadas nas pernas e nos braços. Levado ao hospital local, foi operado aos ferimentos e, embora livre de perigo, terá que permanecer durante vários dias no hospital. A justificação dada pelo jovem, que apesar de tudo já tem idade para ter juízo, foi:

Yangyang era tão lindo e eu só queria abraçá-lo. Não esperava que ele me atacasse.

Este não é o primeiro caso registado de humanos que se deixam tentar pela fofura inerente aos pandas, e que acabam por receber não um abraço mas a marca dos dentes dos animais. Num caso registado antes deste, em Pequim em 2006, o homem mordido, um turista estrangeiro, tinha ao menos a desculpa de estar bêbado. Nesse caso, o homem, depois de mordido pelo panda, mordeu de volta.

Pandas, fofinhos mas com bons dentes.

Ficha técnica
Texto construído a partir desta notícia da CNN, e da versão em português no Estadão.
Imagem de panda cortesia de Sheila Lau via Wikimedia Commons.

terça-feira, Outubro 28, 2008

A vida difícil dos jovens golfinhos

Estava a passar em revista os artigos que tinha sob a forma de rascunho e qual não é a minha surpresa quando reparei que não tinha publicado o último da minha sequência sobre os golfinhos. Esta coisa andou para aqui escondida durante mais de um ano. Com grande atraso, ei-lo aqui.

Se perguntarem, numa sala cheia de crianças, quantas gostariam se ser astronautas de certeza que muitos braços se levantarão no ar. Se, em vez disso, perguntarem quantas querem ser astronómos, com alguma sorte verão um braço ou dois no ar. Ser cientista é algo que não desperta grande interesse na miudagem. Há no entanto uma excepção. Se perguntarem quem gostaria de ser um dos cientistas que estudam os golfinhos, quase todos os miúdos se mostrarão entusiasmados com isso. Embora não sejam felpudos como os pandas, não deixam de fazer parte dos animais «abraçáveis», pois o rosto dos golfinhos descreve uma espécie de sorriso. Não se trata de um sorriso verdadeiro, a face do golfinho não possui os músculos para isso. É apenas um acaso que faz com que uma boca que evoluíu para caçar peixes e lulas nos pareça simpática. As pessoas tendem assim a afeiçoar-se instintivamente aos golfinhos, e o facto de serem criaturas sociáveis e brincalhonas leva-nos a querer interagir com eles. Aquilo que atrai a criançada são coisas como nadar com os golfinhos, brincar com eles, e mesmo a remota possibilidade de conseguir falar com eles. Ora estas são más razões para estudar mamíferos marinhos. Não interessa se parecem sorrir, os golfinhos são animais selvagens, perigosos, e devem ser encarados como tal. Esta imagem de uma mãe golfinho e da sua cria pode parecer enternecedora, mas há perigos à espreita, não os tubarões de que falei aqui, mas sim outros golfinhos. Este é o lado verdadeiramente tenebroso dos golfinhos de que prometi falar. [... ler mais]

Já tinha falado aqui de um lado "mau" dos golfinhos, ilustrado nesta fotografias, parte de uma sequência que mostra um roaz corvineiro (Tursiops truncatus) a espancar até à morte um boto marinho (Phocoena phocoena):

O fotógrafo, Peter Asprey, tece aqui os seguintes comentários sobre a inclusão dessas imagens em artigos sobre golfinhos na Wikipedia:

Descobri que juntar este tipo de imagens, em qualquer lugar próximo da visão amigável e abraçável dos golfinhos, causa o retorno quase imediato a uma versão anterior.

Muitas pessoas sentem uma espécie de choque quando se lhes mostra algo deste tipo, sobretudo quando se lhes diz que este tipo de ataques não são uma ocorrência isolada. Cerca de 63% dos botos marinhos encontrados mortos em terra em Moray Firth mostravam várias lesões no esqueleto e danos nos orgãos internos que eram consistentes com ataques por roazes corvineiros. O comprimento do corpo dos botos marinhos vítimas de ataques variava entre 0.74 a 1.66 metros, com 84% no intervalo entre 1.0 a 1.5 metros. Ora o que tem de especial este intervalo de tamanho a que corresponde a maior parte dos ataques? Bem, trata-se do tamanho aproximado das crias jovens dos roazes corvineiros, animais com menos de um ano de idade e dependente das mães.

A matança dos botos marinhos parece ser um treino para algo de contornos muito mais sinistros. Pelo menos é isso que sugere um estudo de Patterson e colegas na revista Proceedings of the Royal Society B (ref1). Numa tradução livre do resumo:
A maioria dos botos marinhos encontrados mortos na costa nordeste da Escócia mostram sinais de ataque por roazes corvineiros, mas as razões para estas interações violentas permanecem pouco claras. Exames post-mortem de roazes corvineiros que deram à costa mostram que cinco crias de um total de oito desta mesma área também foram mortas por roazes corvineiros. Estes dados, juntamente com as observações directas da interação agressiva entre um roaz corvineiro adulto e uma cria de roaz corvineiro morta, fornecem evidências fortes para o infanticídio nesta população.


Os danos nos corpos dos crias encontradas mortas eram em tudo idênticos aos danos observados nos botos marinhos. No caso observado por testemunhas humanas, um golfinho adulto agrediu o que então era já um cadáver de uma cria durante 53 minutos. A pancadaria que os roazes corvineiros machos infligem nos botos marinhos parece ser apenas um treino para serem mais eficientes a matar as suas próprias crias.
A semelhança no tamanho dos botos marinhos e das crias de golfinho que mostravam sinais de ataque por roazes corvineiros sugerem que as relações interespecíficas relatadas previamente podem estar relacionadas com este comportamento infanticida. Estas descobertas parecem fornecer a primeira evidência de infanticídio nos cetáceos (baleias, delfinídeos e focenídeos). Sugerimos que o infanticídio deve ser considerado como um factor que molda a sociabilidade nesta e noutras espécies de cetáceos, e que pode ter consequências sérias para a viabilidade de populações pequenas.

Não se trata de um comportamento desviante de um ou outro golfinho, faz parte do repertório de comportamentos ditos normais dos machos da espécie. O infanticídio é conhecido de muitas outras espécies de mamíferos. Por exemplo, já falei aqui do infanticído nos suricatas. É algo corriqueiro também nos grandes felinos e mesmo nos gatos domésticos. Uma possível explicação tem que ver com o longo tempo que as crias de golfinho passam junto da sua mãe, que fica disponível para acasalar pouco tempo depois da morte da cria.

A moral da história é que os golfinhos são criaturas magníficas mas não deixam de ser animais, predadores violentos e perigosos. Pessoalmente acho os verdadeiros muito mais interessantes do que a imagem amigável e inofensiva que a Disney e os operadores turísticos querem fazer passar.

Ficha técnica
Imagem no início da contribuição cortesia de Faraj Meir via Wikimedia Commons.
Imagens de golfinho a matar o boto marinho cortesia de Peter Asprey via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) I. A. P. Patterson, R. J. Reid, B. Wilson, K. Grellier, H. M. Ross, P. M. Thompson (1998). Evidence for infanticide in bottlenose dolphins: an explanation for violent interactions with harbour porpoises? Proceedings of the Royal Society B, Volume 265, Number 1402, Pages 1167-1170. DOI 10.1098/rspb.1998.0414.

segunda-feira, Outubro 27, 2008

Aqueles que carregam corpos estranhos

Esta imagem de uma criatura com o tamanho aproximado de uma bola de golfe mostra um xenofióforo. Se o tamanho por si só não vos parece nada por aí além, então e se eu vos disser que se trata de uma criatura unicelular? Os xenofióforos são aparentados com os foraminíferos, só que muito maiores. Embora pouco se fale deles, são criaturas muito comuns nos fundos oceânicos, a profundidades elevadas. Nalguns locais dominam mesmo os ecossistemas, com números da ordem de duas dezenas de indivíduos por metro quadrado. Alimentam-se de partículas que encontram nos fundos marinhos, que rodeiam com pseudópodes, num processo semelhante ao usado pelas amibas, e durante o qual excretam uma substância mucilaginosa. Em locais onde há muitas destas criaturas esse muco pode cobrir vastas áreas. O nome xenofióro quer dizer "carregador de corpos estranhos" e tem que ver com o facto de estes organismos unicelulares possuírem uma carapaça formada por coisas que recolhem nos sedimentos, incluindo grãos de areia, conchas partidas, espículas de esponjas, e os seus próprios excrementos. Da última vez que tinha ouvido falar nestas criaturas tinha ficado impressionado com o diâmetro da maior que se conhecia então, por volta de 38 milímetros. Ora ao vasculhar o Deep Sea News fiquei a saber que afinal há muito maiores. [... ler mais]

Eis aqui uma imagem particularmente bonita de um destes seres unicelulares, um pouquinho maior, com cerca de 20 centímetros de diâmetro:

A criatura da imagem não tem indicação de espécie, mas dadas as dimensões é possível que se trate da maior espécie conhecida, Syringammina fragillissima, que atinge os tais surpreendentes 20 centímetros de diâmetro. Apesar de comuns sabe-se muito pouco sobre estes seres, pois são muito frágeis, e os espécimes recolhidos acabam por ficar invariavelmente danificados e morrer.

Para ver esta células não é preciso um microscópio. São não apenas visíveis a olho nu, mas maiores que muitos dos bicharocos que estamos habituados a ver no dia a dia. Parece estranho que se fale tão pouco delas. Duvido que a maioria dos leitores já tivesse ouvido faler nestas criaturas.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto retiradas das páginas do Ocean Explorer da NOAA, aqui e aqui.

quinta-feira, Outubro 23, 2008

As multidões do gelo

Esta coisinha preta agarrada ao gelo é uma minhoca de gelo, da espécie Mesenchytraeus solifugus. Como referi na contribuição anterior, trata-se de uma criatura que prospera nos glaciares da orla do Pacífico na América do Norte. O gelo de um glaciar pode parecer um meio inóspito, mas os campos de neve que os cobrem podem acolher uma grande densidade de algas, que fornecem o meio de subsistência para populações gigantescas destas minhocas do gelo. Os números são surpreendentes, alguns glaciares podem conter populações de minhocas em que o número de indivíduos ultrapassa o número de seres humanos na Terra. [... ler mais]

Daniel Shain e colegas referem alguns dados interessantes sobre minhocas do gelo, num artigo na revista Canadian Journal of zoology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A minhoca do gelo, Mesenchytraeus solifugus ssp. rainierensis, é o único anelídeo conhecido que sobrevive no gelo dos glaciares. Relatamos as localizações de oito populações de minhocas de gelo no centro-sul do Alasca, incluindo os limites mais a norte e oeste do habitat conhecido das minhocas do gelo. Todas as minhocas do gelo identificadas neste estudo habitam glaciares costeiros próximos do Golfo do Alasca. Foram encontradas numa variedade de habitats incluindo campos de neve, cones de avalanche, fissuras nas paredes, rios e lagos glaciais, e gelo duro de glaciares. As minhocas de gelo não foram encontradas em todos os glaciares costeiros nem foram encontradas no interior do Alasca. As minhocas do gelo no Glaciar Byron, no Alasca, totalizavam cerca de 30 milhões distribuídos por sete cones de avalanche distintos. Mostravam um ciclo diurno, aparecendo na superfície do glaciar algumas horas antes do pôr do Sol e penetrando no glaciar pouco depois do nascer do Sol. Experiências sugerem que as minhocas do gelo penetram o glaciar preferencialmente abaixo das algas de superfície, Chlamydomonas nivalis, a uma profundidade entre 15 e 100 centímetros e voltam à superfície numa local próximo. O movimento lateral das minhocas do gelo na superfície do glaciar pode atingir velocidade de ~3 m/h. As minhocas do gelo no Glaciar Byron evitavam a luz, mas não respondiam de forma preferencial a diferentes comprimentos de onda no espectro visível. Para finalizar, as minhocas do gelo mostram uma atracção inesperada ao calor.

Marquei a negrito alguns pontos que merecem um pouco mais de conversa. Se os trinta milhões de indivíduos num glaciar vos parece muito, o que dizer de glaciares como o Suiattle onde as estimativas apontam para algo em torno dos 7 mil milhões de indivíduos? Nesse glaciar a densidade de minhocas atinge as 2600 por metro quadrado, e há glaciares onde as densidades são ainda mais elevadas. Esta imagem do Glaciar Sholes após o pôr do Sol é elucidativa:

Ora o que alimenta tantas bocas de minhoca? Bem, pólen, bactérias e sobretudo algas que crescem na neve que cobre os glaciares, tais como as Chlamydomonas nivalis referidas no texto. As C. nivalis são algas microscópicas responsáveis pela chamada neve vermelha ou cor-de-rosa, com o seu característico cheiro a melancia. Estas algas podem existir em quantidades assombrosas nos campos de neve . Mas a simples disponibilidade de alimento não chega, em zonas só com neve, sem gelo por baixo, a densidade de minhocas é muito baixa, elas precisam de gelo duro do glaciar. É dentro desse gelo que elas se refugiam a seguir ao nascer do Sol.

As minhocas serem atraídas pelo calor é algo surpreendente, pois o calor é "mau" para elas. A química interna destes animais está adaptada a funcionar a temperaturas baixas. Acima dos 10 graus Celsius morrem, e acima dos 20 graus Celsius "derretem" literalmente. Se o calor é mau para elas, o frio também. Se tiradas do gelo e expostas ao ar gelado do inverno congelam e morrem. Daí que se mantenham bem escondidas dentro do gelo onde as temperaturas rondam uns confortáveis zero graus Celsius.

Num dos comentários à contribuição anterior foi referido um progama da National Geographic sobre as minhocas do gelo. Após uma rápida busca pela conta da NG no youtube encontrei um resumo desse programa. Mostra algumas minhocas no início, mas a maior parte é sobre a busca infrutífera destas criaturas por altura do Inverno. Os cientistas bem se fartam de escavar mas das minhocas nada.



Ficha Técnica
Imagens retiradas da página da North Cascades Glacier Ice Worm Research mantida por Mauri S. Pelto.

Referências
(ref1)Daniel H. Shain, Tarin A. Mason, Angela H. Farrell, and Lisa A. Michalewicz (2001). Distribution and behavior of ice worms (Mesenchytraeus solifugus) in south-central Alaska. Can. J. Zool. 79(10): 1813–1821. doi:10.1139/cjz-79-10-1813.

quarta-feira, Outubro 22, 2008

A minha bebida com gelo... e minhocas

Os artigos sobre o famigerado aquecimento global, quiça de origem antropogénica, têm os seus heróis e vilões no mundo animal. O herói parece ser o urso polar, a que foi atribuído o estatuto de espécie protegida, apesar de manter uma população estável. Confesso que não estou preocupado por aí além com o urso polar. É que o gelo já deixou de cobrir os mares do Ártico no passado e eles sobreviveram. Os vilões parecem ser os infelizes tubarões, com vozes de alarme a ecoarem por toda a imprensa, em Fevereiro deste ano, por causa de um possível acesso dessas criaturas aos mares da Antártida. Como explica a Lúcia Malla, não era razão para tanto, pois ao ritmo a que estão a desaparecer estarão extintos na altura em que tal hipotética invasão deveria acontecer. Mas há criaturas que poderiam ser muito mais afectadas e delas ninguém fala. Todos ouvimos falar do fim anunciado de grande parte dos glaciares, só que ninguém refere a interessante fauna e flora das grandes geleiras deslizantes. O lápis aqui ao lado está colocado ao lado de um bocado de gelo, e as coisinhas pretas são minhocas da espécie Mesenchytraeus solifugus. Essas minhocas não foram colocadas no gelo apenas para se conservarem entre estudos. Estes animais vivem no gelo dos glaciares e não sobrevivem fora desse meio. [... ler mais]

O solifugus no nome deste bicharoco significa "que foge do Sol", e descreve um dos hábitos da criatura, que se "enterra" no glaciar durante os períodos de luz. Mas apesar do local onde vive parece uma minhoca normal:

É no entanto fortemente pigmentada (estranho para um bicharoco que evita o Sol).

As minhocas do gelo são difíceis de observar e a literatura sobre elas não é tão abundante como isso. Parecem estar confinadas a uma região não tão vasta como isso da América do Norte. O artigo que descreve a distribuição destas curiosas criaturas é da autoria de Paula Hartzell e colegas na revista Canadian Journal of Zoology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

As minhocas do gelo, Mesenchytraeus solifugus e Mesenchytraeus solifugus rainierensis (Enchytraeidae), são os únicos oligoquetas conhecidos adaptados à vida no gelo. Recolhemos exemplares de minhocas do gelo em mais de 100 populações em toda a região do pacífico-noroeste da América do Norte. A sua distribuição actual cobre ~2500 km ao longo da costa do Pacífico, do centro-sul do Alasca ao centro do Oregão, encontrando-se a maior parte das populações em glaciares temperados de altitude relativamente baixa. Análises filogenéticas baseadas sobre a sequenciação partial dos locus de ADNr nuclear e de sub-unidade I do citocromo c oxidase (COI) mitocondrial revelam a existência de dois clados distintos (boreal e austral).

Clado é um termo que vem da palavra grega para ramo, e é utilizado em análises filogenéticas para descrever ramificações nas árvores filogenéticas, que descrevem as relações de parentesco entre organismos. Neste caso, as minhocas boreais (ou seja do norte) são mais aparentadas entre si do que qualquer elas é com as minhocas austrais (isto é do sul).
O clado boreal agrupa todas as populações do Alasca, ao passo que o clado austral contém as populações da Colúmbia Britânica e dos estados de Washington e Oregão. Não encontrámos nenhuma indicação de fluxo genético entre essas duas linhas, nem entre as populações de glaciares não contíguos na totalidade da área de distribuição. Os nossos resultados fazem crer que os mecanismos de dispersão das minhocas do gelo são sobretudo de tipo activo; existe contudo um caso de dispersão passiva a assinalar no extremo sul da sua área de distribuição.

Ou seja, cada glaciar contém a sua população separada dos outros glaciares. Não posso ser só eu a achar que há algo errado com os movimentos "ambientalistas" e o seu hábito de escolher criaturas fofinhas para estandartes das suas causas. Quantos de vocês já tinham ouvido falar das minhocas do gelo e do perigo que correm caso os glaciares desapareçam?

Claro que aqui se põe a questão, esses glaciares estarão de facto a desaparecer? Parece que sim, a maioria deles tem vindo a recuar de forma mais ou menos pronunciada nos últimos duzentos anos. Curiosamente, a excepção foi o Inverno de 2007-2008, em que caiu um razoável volume de neve, que se manteve durante os meses de Verão, razoavelmente frios, e que levou a um acréscimo da quantidade de gelo em muitos glaciares do Alasca. Mas um bom ano não significa que as minhocas do gelo estejam safas, seria preciso que a coisa se repetisse nos anos que se seguem.

Mais sobre as extraordinárias minhocas do gelo amanhã.

Ficha Técnica
Imagens retiradas da página da North Cascades Glacier Ice Worm Research mantida por Mauri S. Pelto.

Referências
(ref1) Paula L. Hartzell, Jefferson V. Nghiem, Kristina J. Richio, and Daniel H. Shain (2005). Distribution and phylogeny of glacier ice worms (Mesenchytraeus solifugus and Mesenchytraeus solifugus rainierensis). Can. J. Zool. 83(9): 1206–1213. doi:10.1139/z05-116.

terça-feira, Outubro 21, 2008

Mas que grande papagaio...

Há coisa de dois anos e meio (como o tempo passa depressa) falei aqui de um papagaio terrícola, de seu nome científico Strigops habroptilus, nativo da Nova Zelândia onde é conhecido como Kakapo. Na altura referi o peso do animal, por volta dos 4 kg, mas só ao observar esta imagem, cedida pela Universidade de Massey me apercebi do quão grande era o bicho. A servir de escala está Anna Gsell, uma aluna de doutoramento, que estuda o perfume erótico das penas dos kakapos machos.

Ficha Técnica
Imagens cortesia da Universidade de Massey, a partir desta página.

segunda-feira, Outubro 20, 2008

Os jericos dos faraós

Esta é uma gravura do Egipto Antigo, de cerca de 1300 AC, e mostra uma cena bucólica que sobreviveria com poucas modificações durante os milénios a seguir. Os ceifeiros e os burros são algo que recordo ainda da minha infância, mas há muito desapareceram da paisagem rural portuguesa. Hoje em dia é um pouco difícil imaginar o impacto que a domesticação do Equus asinus teve na história humana. Dados genéticos mostram que os burros terão sido domesticados, há cerca de seis mil anos, a partir de asnos selvagens africanos, provavelmente na região do Egipto Antigo. Ora arqueólogos que escavavam túmulos dos primeiros faraós, na região de Abidos, a cerca de 500 km da cidade do Cairo, ficaram surpreendidos quando, nalgumas das sepulturas que indicavam estatuto mais elevado, encontraram não restos de nobres egípcios, mas sim esqueletos de burros enterrados há cerca de 5 mil anos. Nos ossos desses animais encontram-se pistas que mostram que os animais eram bestas de carga, provavelmente um grupo de animais responsável pelo abastecimento das residências do faraó. E pode não ter sido um faraó qualquer. Não há uma identificação exacta mas pode ter-se tratado de Narmer, que juntou o Alto e o Baixo Egipto num único estado unificado. O transporte de mercadorias nas costas dos burros, e não dos humanos, pode ter sido um dos factores a permitir essa unificação. [... ler mais]

O artigo que descreve os jericos dos faraós é da autoria de Stine Rossel e colegas e foi publicado na revista Proceedings of the Natural Academy of Sciences (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A domesticação do burro a partir do asno selvagem africano transformou os sistemas de transporte antigos em África e na Ásia e a organização das primeiras cidades e sociedades de pastoralistas. A pesquisa genética sugere uma origem africana para o burro, mas apontar com exactidão o tempo e local da domesticação tem sido um desafio porque os burros são pouco comuns no registo arqueológico e indicadores das fases iniciais de domesticação são difíceis de determinar. Apresentamos evidência não descrita previamente do mais antigo uso do burro como meio de transporte e novos indicadores paleopatológicos das fases iniciais da domesticação do burro. As descobertas são baseadas em dados de 10 esqueletos de jumentos com aproximadamente 5,000 anos de um antigo complexo mortuário faraónico em Abidos, no Egipto Médio, e um estudo complementar de 53 esqueletos de burros modernos e asnos selvagens africanos.

Abidos é o local onde foram enterrados os primeiros reis do Egipto. Na primeira dinastia, quer os túmulos reais quer os locais de culto das vizinhanças, encontravam-se rodeados de túmulos subsidiários, provavelmente de funcionários e nobres de elevado estatuto. Nem todos esses túmulos continham restos humanos. Alguns continham esqueletos de leões, simbolizando o poder da realeza. Num dos casos as campas continham vestígios de 14 grandes barcos de madeira. Tudo indica que estas sepulturas adicionais se destinavam a assegurar que o rei poderia dispor do seu conteúdo no além. Os jumentos foram encontrados nesse tipo de túmulos subsidiários, e embora os selos sejam característicos dos primeiros soberanos do Período Dinástico, não continham o nome do rei. É, contudo, possível que sejam do tempo dos primeiros reis tais como Narmer e Aha.

Todos os animais foram colocados paralelamente uns aos outros e olhando para sudeste. Os túmulos continham apenas os burros e nenhuns restos humanos ou quaisquer bens mortuários. Os esqueletos estavam quase completos, embora faltassem cinco crânios, uma indicação de que ladrões de túmulos poderão ter passado por ali e testado o conteúdo. Agarrados aos ossos havia vestígios dos tecidos e pêlos dos animais. Eis aqui uma foto dos jericos ainda nos seus túmulos de tijolos de lama:

A comparação com os esqueletos dos asnos selvagens e de burros domésticos mostrou que os animais de abidos eram de estatura semelhante aos parentes selvagens dos burros, em geral maiores que os burros domésticos. Os outros detalhes do esqueleto não mostravam ainda as características típicas dos burros.
Os estudos morfométricos mostram que os metacarpos de Abidos eram semelhantes nas proporções gerais aos do asno selvagem, mas as medições individuais variavam.

Temos portanto esqueletos de burros associados com os seres humanos, mas cujos esqueletos eram essencialmente iguais aos dos animaiss selvagens. Como saber então se eram ou não animais domésticos? O segredo estava nas vértebras, tais como as da imagem abaixo.

Carregar fardos com 20 a 30% do peso corporal no lombo deixa marcas no esqueleto dos animais:
Apesar disso, todos os esqueletos de Abidos mostram uma variedade de ostopatologias consistentes com o transporte de cargas. A semelhança morfológica com os asnos selvagens mostra que, apesar do seu uso como bestas de carga, os burros estavam ainda a sofrer considerável mudança fenotípica durante os primeiros perídodos Dinásticos no Egipto. Este padrão é consistente com estudos recentes de outros animais domésticos que sugerem que o processo de domesticação é mais lento e menos linear do que se pensava previamente.

Cerca de mil anos após o início do processo de domesticação os burros eram ainda muito semelhantes aos seus parentes selvagens. Hoje estão em processo de extinção acelerada em certas regiões do mundo. Em Portugal quase desapareceram. Na Índia vi ainda muitos burros vivendo na periferia das cidades, em particular em Coimbatore, mas já não utilizados como animais de carga, foram substituídos pelos veículos motorizados de 3 rodas.

Ficha técnica
Foto da ilustração do Antigo Egipto cortesia do Yorck Project via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Stine Rossel, Fiona Marshall, Joris Peters, Tom Pilgram, Matthew D. Adams, and David O'Connor (2008). Domestication of the donkey: Timing, processes, and indicators. PNAS. 10.1073/pnas.0709692105.

quinta-feira, Outubro 16, 2008

Um rapaz e o seu cão, 26 mil anos atrás

Algures em França existe uma gruta chamada Chauvet. No interior da gruta abundam as marcas dos seus ocupantes passados, humanos e não humanos. Entre as mais extraordinárias está uma pista de cerca de 50 metros com as pegadas de um único ser humano. Mostra-se aqui a primeira pegada desse trilho, um pé esquerdo com 21.2 centímetros de comprimento e largura máxima de 9.2 centímetros. Nos europeus modernos a morfologia e dimensões corresponderiam a uma criança do sexo masculino com cerca de 1,30 metros de altura e 8 a 10 anos de idade. O miúdo deixou ainda marcas de mão enlameadas, provavelmente de locais onde escorregou, e marcas de fuligem de uma tocha nas paredes. As marcas da tocha talvez sejam um acidente, talvez servissem para marcar o caminho de volta. Na gruta existem também inúmeros vestígios não humanos, na sua grande maioria pegadas e marcas feitas pelas garras de ursos, mas foram encontradas também as marcas das patas de um canídeo solitário, marcas essas que seguem de muito perto o mesmo trajecto do garoto. Ora algumas peculiaridades na forma dos dedos dos meios das patas do canídeo sugerem que se trataria de um cão e não de um lobo. A datação da fuligem deixada pela tocha sugere que tudo isto se passou há 26 mil anos atrás, num passado muito distante. [... ler mais]

Admitindo que o rapaz levou o seu cão numa visita pela gruta, o que os esperava era algo de magnífico. Seis mil anos antes da passagem da criança pela gruta, outros seres humanos tinham deixado nas suas paredes alguns dos mais fantásticos exemplos de arte rupestre que se conhecem. Estas fabulosas cabeças de cavalo são apenas um dos muitos exemplos. Aliás, a qualidade das pinturas levantou alguma polémica quanto à validade da datação das pinturas. A cronologia de radiocarbono indica duas fases de utilização do local por seres humanos. A primeira de 32,500 a 30,000 anos atrás é a que está directamente associada com as pinturas. A segunda incursão de seres humanos terá sido uma breve visita algures entre 27,000 a 26,000 anos atrás, e inclui as marcas de tocha e as pegadas deixadas pelo menino. Embora a idade das figuras se mantenha controversa, pois não se esperaria este nível de sofisticação senão 15 mil anos depois, para já os resultados das várias datações por radiocarbono são consistentes, e sugerem grande antiguidade.

Vinte e seis mil anos atrás um miúdo pegou numa tocha, chamou o seu cão e foi numa fantástica viagem de descoberta num local assombroso. E nós temos as marcas que contam essa história. Talvez seja mesmo só uma história, infelizmente não podemos assegurar que as pegadas do menino e do cão tenham sido feitas na mesma altura. Podem estar separadas por dias, anos, ou mesmo séculos. É que elas nunca se cruzam. Se tivéssemos locais onde o rapaz pisasse parte das pegadas do cão, e outros onde o inverso se passasse, isso indicaria que se tratava de um passeio a dois. Seria contudo um passeio de todo inesperado pois teria ocorrido 12 mil anos antes da data em que se julgava ter ocorrido a domesticação do melhor amigo do homem. E daí talvez não, é que um trabalho recente sugere que cães e homens andarão juntos há muito mais tempo do que se pensava. Mas isso fica para outra contribuição.

Ficha técnica
Imagens retiradas destas páginas do Ministério Francês da cultura.

Referências
Return to Chauvet Cave: Excavating the Birthplace of Art: the First Full Report, by Jean Clottes, 2003. London: Thames & Hudson Ltd.

quarta-feira, Outubro 15, 2008

O semnopiteco que afinal era um traquipiteco mas que tudo indica volte a ser um semnopiteco

Esta imagem é uma das inúmeras fotografias de langures pretos das Nilgiris que tirei na minha viagem à Índia, em Março deste ano. Ora os leitores que tenham recorrido à Wikipedia para obter informações sobre o animal terão sido enviados à página de uma espécie designada Trachypithecus johnii e não ao Semnopithecus johnii que eu uso aqui. O que sucede é que na literatura científica ainda perdura alguma confusão quanto à nomenclatura destes animais. Os langures pertencem ao ramo asiático da família de macacos do velho mundo que se designa por Colobinae. Os colobinos são um grupo razoavelmente diverso que inclui dezenas de espécies repartidas por 10 géneros. Há uma separação clara entre os géneros africanos e os asiáticos, e entre os asiáticos existem dois subgrupos, um formado pelos langures e outro pelos chamados macacos de nariz-esquisito (tradução literal do inglês, se alguém souber um termo português mais adequado por favor contacte-me). Os langures foram inicialmente colocados num único género, Presbytis ou Semnopithecus, mas diferenças na morfologia craniana levaram os investigadores modernos a reparti-los em três géneros: Semnopithecus, Trachypithecus e Presbytis. O langur preto das Nilgiris foi incluído nos Trachypithecus, baseado em semelhanças morfológicas. Só que quando se vai mais fundo, e se analisam os genes, descobre-se que isso possivelmente se deve a efeitos de convergência ecológica. Parece que afinal eu estava certo em manter a designação de Semnopithecus johnii.[... ler mais]

Na biologia moderna, esclarecer as questões de nomenclatura não é tão arbitrário como parece. A classificação deve reflectir as relações de parentesco, pelo que espécies no género Trachypithecus devem partilhar entre elas um antepassado comum mais recente do que qualquer delas partilha com o género Semnopithecus. Admitia-se modernamente que o género Semnopithecus possuía apenas uma espécie, S. entellus, uma criatura semi-terrícola que vive em florestas de árvores de folha caduca. Assumia-se por outro lado que o género Trachypithecus possuía um grande número de espécies, nativas de florestas húmidas de folha perene. Na verdade, em vez de espécies é melhor falar em agrupamentos de espécies, pois existem variantes regionais e o número de espécies de traquipitecos pode ultrapassar a dezena. Estes agrupamentos de espécies eram designados por T. [cristatus], T. [obscurus], T. [francoisi], T. [pileatus], e T. [vetulus]. Neste último agrupamento estão incluídas duas espécies, o T. vetulus e o T. johnii (o langur preto das Nilgiris).

O artigo que esclarece as relações entre semnopitecos, traquipitecos e presbitíos é da autoria de Martin Osterholz, Lutz Walter, e Christian Roos, e foi publicado na revista BMC Evolutionary Biology (ref1) . Na motivação para o trabalho os autores referem:

A história evolucionária dos colobinos asiáticos é mal compreendida. Embora a monofilia dos macacos de nariz esquisito tenha sido confirmada recentemente, as relações entre os géneros de langures Semnopithecus e Trachypithecus e a sua relação com os colobinos asiáticos permace pouco clara. Para além disso, reconhecem-se vários grupos de espécies no Trachypithecus mas as suas filiações ainda são motivo de disputa. Para responder a estas questões, dados de sequências mitocondriais e do cromossoma Y foram filogeneticamente relacionados e combinados com a presença/ausência de integração de retroposões.

Aqui convém esclarecer o que é essa coisa da parafilia e monofilia, conceitos centrais na classificação biológica moderna. Para os esclarecer, nada melhor que um exemplo: consideremos as formas de agrupar o homem moderno, o homem de neandertal, e os chimpanzés. Poderíamos pensar em agrupá-los consoante as espécies que ainda sobrevivem hojem em dia, isto é, homem moderno + chimpanzés, versus homem de neandertal. Só que, como todos sabemos, isto não traduz as afinidades biológicas, os homens de neandertal estão mais próximos de nós do ponto de vista evolutivo (filogenético) que dos chimpanzés. Isso significa que esse agrupamento de espécies não reflecte as relações de parentesco, e é designado por parafilético. Por outro lado, uma classificação em que se tenha homem moderno + homem de neandertal, versus chimpanzés respeita as relações evolutivas, e é designada por monofilética.

A separação das espécies em géneros é de certa forma artificial, mas uma vez feita deve reproduzir as relações filogenéticas entre as espécies, isto é, deve ser monofilética. O preço a pagar é uma certa instabilidade no nome das espécies, pois esses nomes incluem a designação do género e aí aplicam-se regras de antiguidade na publicação do nome. Com o advento das análises genéticas as coisas têm ficado mais fáceis, pelo menos no que se refere a espécies não extintas. Martin Osterholz e colegas conseguiram alguma clarificação no que se refere aos vários géneros de langures, mas permanecem algumas incertezas. Como resultados os autores referem:
O fragmento de 5 kb do genoma mitocondrial analisado não permite a resolução das relações filogenéticas entre os géneros de langures, mas detectaram-se cinco integrações de retroposões que ligam o Trachypithecus e o Semnopithecus. De acordo com os dados do cromossoma Y e de um fragmento de 573 pares de bases do gene do citocroma b mitocondrial, é suportada uma origem comum e monofilia recíproca do grupo de espécies T. [cristatus], T. [obscurus] e T. [francoisi], que também é apoiada por uma inserção ortóloga de retroposão.

Estas inserções de retroposões são fragmentos repetitivos de ADN que têm grande valor informativo, e que não é necessário discutir aqui em detalhe (outra forma de dizer que não percebo grande coisa do assunto). Ora sobram dois dos agrupamentos de espécies colocadas nos traquipitecos. O que sucede aos outros, em particular ao T. [vetulus], onde se inclui o nosso langur preto?
O T. [vetulus] agrupa-se dentro Semnopithecus, algo que é confirmado por duas integrações de retroposões. Para além disso, este grupo de espécies é parafilético, com o T. vetulus formando um clado com o S. entellus do Sri Lanka e o T. johnii com a forma do Sul da Índia do S. entellus. Detectaram-se incongruências nas árvores genéticas para o T. [pileatus], visto que os dados do cromossoma Y ligam-no com T. [cristatus], T. [obscurus] e T. [francoisi], enquanto os dados mitocondriais filiam-no com o clado do Semnopithecus.

O ênfase a negrito é meu. Os autores concluem então.
Nenhuma das relações entre os três géneros de langures nem as suas posições entre os colobinos asiáticos pode ser esclarecida com os 5kb de dados de sequências mitocondriais, mas as integrações de retroposões confirmam pelo menos uma origem comum de Semnopithecus e Trachypithecus. De acordo com as sequências de dados do cromossoma Y e de 573 pares de bases mitocondriais, T. [cristatus], T. [obscurus] e T. [francoisi] representam verdadeiros membros do género Trachypithecus, enquanto T. [vetulus] se agrega dentro do Semnopithecus. Devido à parafilia do T. [vetulus] e à polifilia do Semnopithecus, parece apropriada a divisão do género em três grupos de espécies (S. entellus - Norte da Índia, S. entellus - Sul Índia + T. johnii, S. entellus - Sri Lanka + T. vetulus). O T. [pileatus] coloca-se numa posição intermédia entre ambos os géneros, indicando que o grupo de espécies pode ser o resultado de uma hibridização ancestral.

Ou seja, parece claro que o langur preto das Nilgiris é um semnopiteco, e que esse género passou de uma única espécie para uma mão cheia delas. Sendo assim, vou deixar as legendas das figuras tal como estavam. Claro que os langures que eu fotografei não querem saber disto para nada, estão mais interessados em comer folhas:

Ao incluir esta fotografia notei algo que me tinha escapado no campo. Este animal tem uma cauda estranhamente curta para langur (comparem com a do animal na imagem no início da contribuição). Tenho que ver se o identifico nalguma das outras fotografias que tirei.

Ficha técnica
Imagens adaptadas de fotografias tiradas por mim, podem ser usadas livremente.

Referências
(ref1) Martin Osterholz, Lutz Walter, and Christian Roos (2008). Phylogenetic position of the langur genera Semnopithecus and Trachypithecus among Asian colobines, and genus affiliations of their species groups. BMC Evolutionary Biology, vol 8 pg 58. doi: 10.1186/1471-2148-8-58.

segunda-feira, Outubro 13, 2008

Não há pai para alguns tubarões

Este é o tubarão galha preta, de seu nome científico Carcharhinus limbatus. Trata-se de um tubarão de porte razoável que, não sendo dos mais agressivos, tem a sua quota de dentadas em banhistas humanos. Uma pesquisa recente mostrou um aspecto curioso da sua reprodução. À semelhança dos humanos, os tubarões galha preta são víviparos e dão à luz crias vivas, mas não foi esse o aspecto a merecer atenção dos investigadores. O que se observou é que estes tubarões partilham algo com outras criaturas de que falei aqui, como os dragões de Komodo e os perus. Descobriu-se que as fêmeas do tubarão galha preta conseguem reproduzir-se sem a interferência de um macho, isto é, estes tubarões podem reproduzir-se por partenogénese. [... ler mais]

O artigo que refere um nascimento virgem no Carcharhinus limbatus é da autoria de Demian Chapman, Beth Firchau e Mahmood Shivji, e foi publicado na revista Journal of Fish Biology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Fornece-se evidência de partenogénese num tubarão de grande porte, o galha preta Carcharhinus limbatus, da família Carcharhinidae, com muitas espécies e comercialmente importante, o primeiro caso verificado de desenvolvimento assexual nesta linhagem e o segundo apenas dos peixes cartilagíneos. O embrião partenogenético exibia homozigotidade elevada relativa à sua mãe, indicando que partenogénese de automistura é o mecanismo mais provável. Embora esta descoberta mostre que a partenogénese é mais comum e espalhada nos tubarões do que o reconhecido previamente e apoie a existência de capacidades partenogenéticas cedo na linhagem dos vertebrados, a significação adaptativa da auto-mistura nestes peixes antigos permanece pouco clara.

O termo automistura significa que o conjunto de cromossomas proveniente da mãe emparelha neste caso com um conjunto exactamente igual de cromossomas, isto é, o embrião resulta da duplicação do genoma do oócito (por fusão com um dos corpos polares). As crias resultantes deste tipo de partenogénese não são clones da mãe, sendo por vezes designadas por meios-clones. Deve notar-se ainda, sobretudo para os estudantes de liceu, e que podem apanhar este tipo de questões como "rasteira" num exame, que embora os autores se refiram a um desenvolvimento "assexual" o termo não é o mais adequado. O processo envolve células sexuais, os gâmetas femininos, podendo portanto incluir-se como uma forma particular da reprodução sexuada.

Este não é o primeiro caso documentado de partenogénese em tubarões vivíparos. Já tinha sido descrito em tubarões martelo de pequeno porte, da espécie Sphyrna tiburo. Nesse caso tratava-se de um animal em cativeiro, e o nascimento do pequeno tubarão apanhou toda a gente de surpresa. Toda a gente, mas não os outros tubarões no mesmo aquário. Enquanto os observadores tentavam perceber o que se passava, um tubarão de grande porte comeu o infeliz tubarãozinho martelo. Os investigadores usaram nesse caso algumas das sobras do repasto para estabelecerem que se tratava de partenogénese.

No caso estudado por caso Demian Chapman e colegas, a cria não chegou a ver a luz do dia. Foi observada no dia 30 de Maio de 2007, na necrópsia de um tubarão em cativeiro, uma fêmea com nove anos de idade que não tinha recuperado após ter sido sedada durante um exame veterinário de rotina. A necrópsia mostrou um embrião do sexo feminino bem desenvolvido, isso apesar da fêmea ter estado isolada de congéneres durante os oito anos que durou o seu cativeiro. Esta espécie atinge a maturidade sexual por volta dos 7 anos e o período de gestação é de 12 meses. Os testes genéticos mostraram o que se esperaria num caso de partenogénese de automistura: ausência de alelos paternos, e evidência de duplicação dos alelos maternos. A pequenita era apenas filha de sua mãe.

Tal como nos casos dos dragões de Komodo, e dos perus, de que falei anteriormente, a partenogénese dos tubarões parece ser apenas uma possibilidade eventual, sendo a reprodução envolvendo os dois sexos a mais comum. Este processo não deve ser encarado como uma forma das populações de tubarões recuperarem do processo acelerado de extinção em que se encontram. Em particular porque o processo acarreta uma perda de diversidade genética. Embora o recurso à partenogénese possa evitar o fracasso reprodutivo em ambientes onde a densidade destes animais seja reduzida, os custos genéticos podem sobrepor-se às vantagens reprodutivas.

Ficha técnica
Imagem cortesia de Albert Kok via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) D. D. Chapman, B. Firchau, M. S. Shivji (2008). Parthenogenesis in a large-bodied requiem shark, the blacktip Carcharhinus limbatus. Journal of Fish Biology, Volume 73 Issue 6, Pages 1473 - 1477. doi:10.1111/j.1095-8649.2008.02018.x.

segunda-feira, Outubro 06, 2008

Regresso

O blogue esteve interrompido durante mais de seis meses, não devido a mais viagens pela Índia, mas sim porque quando voltei me encontrei desempregado. Não consegui uma posição de que estava à espera. e a ligação internet foi das primeiras coisas a ganhar estatuto de não essencial. A coisa durou muito mais do que pensava, mas tudo se resolveu a bem.

O blogue deve retomar o ritmo normal nos próximos dias.

segunda-feira, Março 24, 2008

Se publicar não beba

O tempo aqui nas montanhas do sul da Índia tem estado péssimo, com chuva quase contínua e algumas trovoadas impressionantes. Uma dessas trovoadas fulminou a minha ligação à internet, daí o meu silêncio nas últimas semanas. Para celebrar o regresso ao blog nada melhor do que referir que encontrei um sério candidato a prémio IgNobel. Imaginem lá que alguém dedicou o seu tempo a medir a correlação entre consumo de cerveja e produtividade científica. [... ler mais]

O artigo que estuda a relação entre a cerveja e a ciência é da autoria de Tomás Grim e foi publicado na revista Oikos (ref1). Numa tradução livre do resumo:

A taxa de publicações é o padrão pelo qual se avalia a produtividade científica. Apesar de um grande número de artigos sobre o tema dos enviesamentos nas publicações e citações, nenhum estudo até agora considerou um possível efeito das actividades sociais na taxa de publicações. Uma das actividades sociais mais frequentes no mundo é beber álcool. Na Europa, a maior parte do álcool é consumida como cerveja e, baseado nos efeitos negativos do consumo de álcool no desempenho cognitivo, previ correlações negativas entre o consumo de cerveja e diversas medidas do desempenho científico. Utilizando um levantamento da República Checa, que possui a taxa de consumo de cerveja per capita mais elevada do mundo, mostro que um maior consumo de cerveja per capita está associada a menores números de artigos, citações totais, e citações por artigo (uma medida da qualidade dos artigos). Além disso, encontrei as mesmas tendências previstas comparando duas regiões separadas geograficamente na República Checa, que também se sabe diferirem nas taxas de consumo de cerveja. Estas correlações são consistentes com a possibilidade de que actividades sociais nos tempos livres possam influenciar a qualidade e a quantidade do trabalho científico e possam ser potenciais fontes de enviesamento nas publicações e citações.

A escolha do país é algo suspeita. Quem já tenha passado uns tempos com checos, sabe bem que o que eles consideram reduzido consumo de cerveja seria considerado consumo excessivo na maioria dos outros locais do mundo. De qualquer forma, há só uma maneira de destruir esta correlação e vou começar já, indo até à povoação mais próxima pedir uma kingfisher gelada.

Ficha técnica
Imagem cortesia de John White via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Tomás Grim (2008). A possible role of social activity to explain differences in publication output among ecologists. Oikos 117 (4) , 484-487. doi:10.1111/j.0030-1299.2008.16551.x

sexta-feira, Março 07, 2008

Querido, esquece as prendas, faz-te é de morto

Esta é uma aranha-lobo, da espécie Pisaura mirabilis. Trata-se de uma fêmea que, no comportamento característico da espécie, carrega um enorme casulo cheio dos seus ovos. Para chegar a esta situação a fêmea teve que acasalar com pelo menos um macho. Ora nesta, com em muitas outras espécies de aranhas, isso significa que o macho corre o risco de, em vez de um encontro amoroso, ser convidado para o jantar, só que como refeição. Os machos da espécie desenvolveram formas de minimizar os riscos, oferecendo como prendas às fêmeas animais envoltos em fios de seda. Outro dos comportamentos observados nos machos face às fêmeas é fingirem-se de mortos. Esse é um comportamento visto noutras espécies na natureza, quando face a predadores. Os cientistas questionavam-se, contudo, se não existiria algo mais por trás deste fingir de morto, algo cujo contexto fosse essencialmente sexual. Medo ou sedução? [... ler mais]

O estudo que trata das preferências amorosas destas aranhas é da autoria de Line Hansena e colegas e foi publicado na revista Behavioral Ecology (ref1). Numa tradução livre do resumo:

Os machos e as fêmeas enfrentam muitas vezes óptimos diferentes na taxa de acasalamento, o que pode causar a evolução da resistência das fêmeas ao acasalamento, e a contra-adaptações nos machos para aumentarem a taxa de acasalamento. Os machos da aranha Pisaura mirabilis possuem um comportamento de acasalamento espectacular que envolve uma prenda nupcial e tanatose (fingimento da morte). A tanatose num contexto sexual é algo de excepcional e foi sugerido que funcionaria como uma estratégia antipredação face a fêmeas potencialmente canibalísticas. Se a tanatose serve como uma estratégia de protecção, os machos deviam fingir a morte em resposta à agressão das fêmeas ou quando estivessem mais vulneráveis a um ataque.

Como é costume estas coisas envolvem uma ablaçãozita:
Testámos estas previsões envolvendo vários factores: machos que foram diminuídos (removeu-se uma pata), e logo vulneráveis, e machos de controlo, foram emparelhados com fêmeas, que eram mais ou menos intrinsecamente agressivas (mediu-se em relação às presas). Nas tentativas de acasalamento, registámos a tendência dos machos para fingirem a morte, o sucesso na cópula, e a duração da cópula. Além disso, investigámos o efeito do estado de acasalamento das fêmeas (virgens ou já tendo acasalado) nessas componentes do acasalamento dos machos. As fêmeas intrinsecamente agressivas mostraram maior agressividade em relação aos machos.

Portanto, os autores conseguiram arranjar todas a condições para o teste: machos mais ou menos vulneráveis, fêmeas mais ou menos agressivas. Os resultados?
Nem a agressividade das fêmeas, nem o seu estado de acasalamento, nem a vulnerabilidade dos machos aumentaram a propensão dos machos para efectuar a tanatose. Em vez disso, os machos que fingiam a morte tinham maior sucesso na obtenção de cópulas e ganhavam acesso a cópulas mais longas. Logo, os nossos resultados sugerem que a tanatose funciona como uma estratégia adaptativa dos machos para ultrapassar a resistência das fêmeas. Todos os machos foram capazes de efectuar a tanatose embora alguns machos a usem de forma mais frequente que outros, sugerindo um custo no fingimento da morte que mantém a variação da tanatose durante a corte.

O sucesso para uma boa vida amorosa por parte dos machos é fingir-se de morto. Pelo menos na Pisaura mirabilis.

Ficha técnica
Imagem cortesia de Katarina Paunovic via Wikimedia Commons.

Referências
(ref1) Line Spinner Hansena, Sofia Fernandez Gonzalesa, Søren Tofta and Trine Bilde (2008). Thanatosis as an adaptive male mating strategy in the nuptial gift–giving spider Pisaura mirabilis. Behavioral Ecology. doi:10.1093/beheco/arm165.